Ela esteve lá.

Não na linha de frente empunhando uma lâmina, nem entre os que marcharam movidos por promessas divinas. Ela esteve lá observando o que veio depois. O silêncio pesado que ficou quando a poeira vermelha assentou, quando os gritos cessaram e o mundo, exausto, voltou a respirar.

O início

Viu Caladria, sua terra natal, ruir sem que uma única muralha fosse realmente derrubada. Viu homens e mulheres abandonarem seus nomes, suas histórias e suas famílias por algo que jamais compreenderam por inteiro. Viu deuses falarem de tesouros e desejos enquanto mortais se tornavam combustível. E, acima de tudo, viu como a guerra não terminou quando a chave desapareceu. Ela apenas mudou de forma.

Durante anos, ela percorreu os antigos campos de batalha. Reuniu relatos, fragmentos de armaduras, anotações queimadas, mapas rasgados e memórias que ninguém mais queria carregar. Conversou com sobreviventes que não se consideravam vitoriosos e com crianças que cresceram sem saber por que seus lares haviam desaparecido. Cada história reforçava a mesma verdade incômoda: o mundo não estava preparado para lidar com o próprio poder que buscava.

Foi ali que a decisão nasceu.

Se Deuses continuariam a jogar seus jogos e reinos continuariam a responder com sangue, alguém precisava olhar para frente. Não para conquistar, mas para entender. Não para desejar, mas para construir algo que não dependesse de promessas divinas ou de guerras santificadas.

Assim surgiu o seu Centro de Pesquisa.

No início eram poucos. Curiosos, estudiosos, artesãos, antigos soldados e até alguns que um dia marcharam em direção à chave e retornaram vazios. Não se uniam por um estandarte ou por fé, mas por um propósito comum: estudar o mundo para que ele não precisasse ser destruído novamente para avançar.

Eles pesquisavam e registravam eventos divinos, anomalias, ruínas e relatos antigos para que o conhecimento não se perdesse ou fosse distorcido por interesses maiores. Cada área do saber era vista como um pilar de um futuro possível, ainda frágil, mas necessário.

Ela nunca se colocou como líder absoluta, embora todos soubessem que a ideia havia partido dela. Preferia ser chamada de coordenadora, guardiã do propósito, alguém que lembrava constantemente por que aquele grupo existia. Sempre que surgia a tentação de usar descobertas para ganho próprio ou vantagem política, ela fazia questão de recordar Caladria, uma marca tão forte em sua lembrança que apareciam até em suas roupas negras em um eterno luto.

Ela acredita, talvez ingenuamente, que o conhecimento pode ser um escudo mais duradouro do que qualquer muralha. Que entender o mundo é a única forma de impedir que ele seja novamente levado à beira do abismo por uma chave, uma promessa ou uma voz vinda dos sonhos.

E se estiver errada, ao menos ficará registrado que alguém tentou aprender com a guerra, em vez de repeti-la.

Centro de pesquisa

O Centro de Pesquisa é uma instituição independente, criada com o propósito de promover o desenvolvimento equilibrado de ambos os reinos sem se submeter diretamente a interesses políticos, religiosos ou militares. Sua lealdade não pertence a coroas, templos ou exércitos, mas ao conhecimento, ao progresso e à preservação da memória coletiva.

Sua atuação beneficia a todos, mas jamais de forma irrestrita. O Centro sustenta uma neutralidade rigorosa: nenhum reino possui acesso irrestrito às suas descobertas, nem direito automático sobre o saber produzido. O acesso ao conhecimento científico, histórico ou técnico, exige investimento formal em pesquisa, financiado pelos impostos dos próprios reinos. Assim, o avanço não é concedido como favor, mas conquistado por decisão política consciente, revelando o valor que cada reino atribui ao conhecimento.

Esse investimento não se limita aos resultados finais. Ele sustenta o próprio processo de pesquisa: materiais consumidos em experimentos, desenvolvimento de protótipos, levantamentos históricos e investigações científicas. O progresso exige recursos, e não é justo que seus custos recaiam sobre aqueles que o constroem, especialmente quando seus frutos beneficiam ambos os reinos.

Dessa forma, o Centro assegura a continuidade de suas atividades, a integridade de suas pesquisas e a justiça na distribuição do saber, mantendo-se fiel ao princípio de que o conhecimento só prospera quando sustentado por responsabilidade compartilhada.

Especializações

Para assegurar organização e foco, o Centro é dividido em dois grandes núcleos, que podem cooperar entre si, mas possuem atribuições bem definidas.

Historiadores
Os historiadores são os guardiões da memória. Cabe a eles preservar o passado, interpretar o presente e impedir que o conhecimento seja moldado apenas pela conveniência política ou perdidos pela passagem do tempo. Suas funções incluem:

  • Documentar eventos passados relevantes e grandes acontecimentos atuais;

  • Registrar decretos, tratados, conflitos e alianças entre os reinos;

  • Catalogar aspectos culturais, tradições, crenças, costumes e expressões artísticas de diferentes povos e raças;

  • Identificar, descrever e preservar registros sobre artefatos, relíquias e descobertas de importância significativa.

  • Por meio de registros rigorosos e imparciais, os historiadores asseguram que o conhecimento permaneça íntegro, servindo como base confiável para decisões futuras.

Pesquisadores

Os pesquisadores são responsáveis por transformar conhecimento em avanço concreto. Voltados à investigação prática e à inovação, atuam na ampliação dos limites do saber e na aplicação de descobertas em benefício dos reinos. Suas atribuições incluem:

  • Desenvolver novos métodos, materiais e linhas de estudo que impulsionem o progresso dos reinos;

  • Apoiar a clínica, buscando causas científicas para doenças, indo além das explicações exclusivamente religiosas;

  • Investigar fenômenos buscando compreender sua origem, causas e possíveis consequências;

  • Enquanto os historiadores preservam o que foi, os pesquisadores constroem o que pode vir a ser. Juntos, garantem que o Centro avance sem perder suas raízes, equilibrando memória, razão e inovação.