
A Confraria não nasceu de um ideal, mas sim de uma falha que ninguém quis reconhecer.
Após a Guerra da Chave, quando o mundo ainda aprendia a caminhar entre ruínas, tribunais foram erguidos em nome de Odorin, templos foram restaurados sob o Sol de Alaja, e novos juramentos ecoaram em nome da ordem, da justiça e da reconstrução. Para muitos, aquilo era redenção, para outros era apenas uma nova fachada para os mesmos erros.
A Confraria


Nas estradas de Caelum, nas docas esquecidas de Kaedros, nos becos de cidades reconstruídas sobre ossos, os mesmos nomes permaneciam intocados. Mercadores que enriqueceram com sangue, nobres que financiaram massacres, magistrados que venderam sentenças em troca de silêncio. A fé absolvia e a lei arquivava. O mundo seguia em frente como se certas culpas nunca tivessem existido.
Alguns tentaram agir sozinhos, um desaparecimento aqui, um roubo ali, um dossiê queimado, uma vida interrompida nas sombras. Por um tempo, parecia suficiente, mas o peso não diminuía. Cada ação isolada era apenas um sussurro contra estruturas inteiras erguidas sobre conveniência, poder e esquecimento.
Foi então que se tornou claro que não se tratava de heróis, nem de mártires ou sequer da justiça no sentido divino. Tratava-se de necessidade.
Nas sobras do mundo, começaram a se reconhecer, ex-soldados descartados após a guerra, filhos de escravos de Kaedros que viram seu povo queimar, acólitos que perderam a fé ao ver a lei ser usada como escudo para monstros. Pessoas que não buscavam glória, redenção ou nome em canções, apenas queria que o peso parasse de recair sempre sobre os mesmos.
Não houve promessas, juramentos ou bençãos... Houve apenas uma escolha.
Nas sombras, firmou-se um pacto simples:
Não servir reis, templos ou bandeiras.
Não responder à balança de Odorin, às profecias de Miati, às luzes de Alaja ou aos sonhos de Neterus.
A Confraria não existiria para corrigir o mundo, mas para agir onde ele escolhia não olhar.
Cada membro manteria seu nome, sua história e suas cicatrizes. Mas quando o peso se tornasse insuportável, quando a injustiça estivesse protegida por lei, ouro ou fé, a ação seria única, precisa e silenciosa.
Assim nasceu a Confraria.
Nós não governamos, não julgamos em praça pública e não reivindicamos feitos. Nossos nomes não entram em registros e nossas mortes não geram homenagens. Agimos abaixo da moeda, entre rotas esquecidas, corredores secretos, porões de palácios e becos onde nem a luz do Sol nem as sombras da Lua costumam tocar.
"As sombras que escolhemos viver nos mostram a verdade que a luz cega com mentiras".


