Drakenthal

Andando sobre um espelho d'água, Aurora disse ter sido visitada pelo Sol e pela Lua. Eles tinham uma missão para lhe dar, algo que ela não poderia se recusar a fazer.

- Suba até a montanha de fogo.

- E liberte nossos filhos terrenos.

- Cumpra a profecia esquecida.

- E poderá viver sem sons de lamentos.

- Seja a mão de ferro que essa terra clama.

- E receberá o poder de levar tudo a chamas.

Quando acordou, Aurora tocou os presentes que havia recebido, um manto tocado por Alaja, ao qual a protegeria de qualquer fogo que pudesse lhe tocar, e um odre tocado por Neterus, ao qual guardava uma água fria que jamais poderia acabar.

Sem dizer uma palavra, Aurora partiu em sua jornada, atravessou a floresta no meio da noite e negociou sua passagem pela trilha das fadas, vestiu roupas quentes para andar pela a neve e continuou até chegar as pedras negras tocadas pela lava.

Mesmo que não soubesse onde estava, ela sabia exatamente qual caminho seguir. Não havia qualquer ser vivo ao seu redor e no lugar dos sons dos pássaros ouvia apenas aquele movimento lento das rochas ao seu redor. O cheiro dos gazes lhe deixava tonta e muitos ossos queimados enfeitavam a sua volta.

Quando finalmente chegou ao berço das criaturas, tirou o capuz para melhor observar. Os três ambares brilhavam como se houvesse fogo preso dentro de si, incandescentes e mais quentes do qualquer lugar que havia passado.

No centro, uma espada presa ao chão pulsava como um coração, ela chamava, não por Aurora, mas por qualquer um que se atrevesse a tentar puxá-la.

A jovem princesa tomou mais um pouco da água da lua e jogando sua bolsa ao chão, andou até a lâmina para tomá-la com firmeza. Não foi necessário muita força de sua parte, apenas o bastante para erguer a espada e tirá-la de seu descanso.

O chão tremeu e por alguns minutos, o vulcão se acalmou para reverenciar as três criaturas que se libertavam, os três dragões da profecia. Seus nomes não foram ditos em voz alta, mas apenas o olhar já lhe serviu como apresentação. Aquele que tinha pele negra e carregava o símbolo da noite se chamava Vharzith, o que tinha pele branca e carregava o símbolo do dia se chamava Solenor e aquele de pele avermelhada que a encara tão intensamente se chamava Aezmyr.

Vharzith e Solenor foram os primeiros a abrirem as asas e subirem aos céus, Aezmyr, com calma, se abaixou, esperando que aquela que carregava sua espada subisse em suas costas.

Aurora o fez de bom grado, ainda tentando entender o que acontecia, mas foi quando esteve nos ares junto aquele ser que suas mentes se tornaram uma, e cada um conseguia compreender exatamente o que o outro queria.

Os Três dragões voaram em direção ao Sul, mas não em direção a Thalvar. Quando chegaram em Kaedros, os gritos já ouviram de longe, todos saíram de suas casas para verem aquelas criaturas que os cercavam, sem saber o que iria acontecer.

- Esse é o momento que vai marcar a rainha que você será!

Aurora ouviu essas palavras em sua mente por aquela voz firme e imponente. Ela pensou em voltar para casa e refletir o que estava acontecendo, ela pensou em pousar e tentar persuadir o Rei que tanto odiava, até sem lembrar do que ouviu dos Deuses que a visitaram em seu sonho.

- Queimem.

Ela não precisou se repetir, Vharzith e Solenor mergulharam sem pressa, sentindo a brisa do mar que a muito tempo não puderam tocar. As pessoas observavam de boca aberta, muito delas maravilhadas, até as chamas finalmente as alcançarem.

Os gritos de socorro podiam ser ouvidos a quilômetros de distância, muitos tentavam correr, tentavam fugir, mas ninguém parecia ser capaz. Aurora sentiu seu coração pesar, sentiu um calafrio lhe subir a pele, queria pedir para que parassem, ao mesmo tempo que sabia que não devia.

- Você tomou sua decisão. Aceitou sujar o presente de sangue pelo bem de vidas futuras.

- Essa foi a escolha certa?

- Não existem escolhas certas ou erradas. O bem e o mau estão sempre sujeitos ao ponto de vista daquele que observa.

- E o que eu faço agora?

- Você aceitou esse poder, agora precisa aprender a carregar a culpa.

Aezmyr então começa a descer em direção ao castelo, onde o Rei ainda incrédulo observa seu mundo ruir. Quando o dragão para a sua frente não há medo em seu rosto, na verdade, ele carrega uma expressão intrigante ao qual deixa Aurora irritada, um olhar que ela jamais conseguiria esquecer. As chamas tocaram sua pele marcando o fim de seu reinado, de sua historia e do nome de sua terra.

A volta de Aurora ao seu povo foi marcada com gritos de alegria e ovações ao seu nome, ela passou sobre todos e pousou em frente ao seu pai que a aguardava em silêncio.

Ela correu em sua direção e percebeu em seus olhos a desaprovação do que havia feito, com movimentos lentos tirou a coroa e a colocou sobre sua cabeça. Ela queria dizer algo, tentar pará-lo, mas nada lhe veio a mente. O povo aplaudiu em festa, diziam ser o início de uma nova era, seu pai apenas se afastou a deixando com o povo que agora tanto a amava.

Aurora tomou o seu posto e aceitou se tornar rainha. Por influência dos dragões, trocou o nome de seu reino para Drakenthal e construiu seu castelo e sua capital em uma montanha sobre as árvores. Se tornou com o tempo temida e respeitada pelos seus vizinhos e seu nome ficou conhecido muito além das terras que tomara.

Ela construiu um lugar próspero, um abrigo aos perdidos e uma força a ser temida. Procurado por todos aqueles que desejam um recomeço ou pelos que buscam proteção.

Existia uma lenda em Caelum, sobre três vidas aprisionadas na terra onde não havia água. Depois das montanhas geladas do Norte, onde a neve não conseguia tocar, onde o mais simples toque conseguia deixar a pele queimada.

A lenda falava sobre três seres, três guardiões que aguardavam por uma profecia, três prisioneiros que esperavam por justiça. Por muitos mais anos do que qualquer um conseguiria contar, ali eles dormiam em pedras de âmbar que brilhavam como chamas.

Não havia recompensas para quem os encontrasse e por isso não havia ninguém que sonhasse em ser aquele que os libertaria, além do risco da jornada, o calor do vulcão era sufocante, e mesmo que você levasse litros de água ainda poderia morrer em meio as chamas.

"Porque lutar?" - Era o que muitos pensavam.

Mais distante daquele lugar, dentro da Floresta de Thareldrin, um pequeno reino começava a tomar forma. Muito menor do que os outros que se estendiam por Caelum, Thalvar era um local de certa forma próspero. Seu Rei, intitulado a pouco tempo, era bondoso e buscava por ajudar aqueles que tinham interesse em viver sobre suas terras. Muitos desses, eram sobreviventes que buscavam abrigo após fugirem de um quarto reino que também tentava tomar aquela região como sua.

Kaedros começou a tomar forma ao lado das águas do mar, sua cidade recebia todas as embarcações que vinham de terras distantes e com isso comercializavam tanto matérias primas quanto qualquer coisa viva, pensante ou não. Liderados por um Rei que buscava apenas por riquezas, Kaedros cresceu em cima do sangue e suor de escravos que trabalhavam apenas para se manterem vivos.

O Rei de Thalvar não era um guerreiro, muito menos alguém que resolvia seus problemas com brutalidade, seu objetivo era, de alguma forma, conseguir convencer o Rei de Kaedros que sua forma de lidar com seu povo era errado, que a escravidão não era algo que deveria ser permitida e que toda vida deveria ser respeitada.

Sua forma de pensar era honrada, mas sua primeira filha, Aurora, não concordava. Ela não acreditava que jantares ou conversas politicas libertariam qualquer pessoa das mãos daquele tirano e foi em um sonho que ela teve sua resposta.