A Guerra da Chave

Uma esfera vermelha, feita do sangue e da carne daquele que nunca teve a chance de nascer. Um ser divino que não recebeu nome ou sequer uma alcunha.

Entre os Deuses sua morte já era premeditada, mas entre os mortais nada do que aconteceu era esperado. Quando o sangue do inocente foi derramado em solo divino, o mundo sentiu um grande tremor, os mares se agitaram engolindo ilhas, a terra se quebrou criando crateras e erguendo montanhas. A comoção se estendeu por algumas horas até que logo veio uma grande calmaria, um momento de silencio em todo mundo onde nem mesmo as criaturas ousaram fazer algum som. Ele durou menos de um minuto, mas para aqueles que presenciaram pareceu uma eternidade, chamado de A hora do Luto, aquele curto espaço de tempo ficou marcado como o momento de solenidade do mundo para a perca de uma divindade, e apenas foi quebrado quando a bênção desceu entre os vivos.

O continente de Caelum era conhecido pelos 3 Grandes Reinos que cresceram a partir do nada, suas terras além de fartas eram distintas, onde vastos campos de areia formavam desertos ao lado de extensas florestas verdes ou das longas estradas que adentravam a neve. Aquele lugar tinha sua própria história formada por tantos eventos e acontecimentos pelo tempo que ocorreram de norte a sul. Naquele dia o som apenas voltou quando o terceiro reino deixou de existir.

O maior entre os seus vizinhos, o reino de Caladria era conhecido por sua cultura e festas animadas, seus estandartes eram coloridos e eles espalhavam a palavra de paz a todos que quisessem ouvir. Não se sabe se naquela dia eles viram ou sentiram algo, os que estavam mais próximos do reino disseram que tudo que ouviram foi um grito alto e agudo, e quando seguiram o som encontraram aquela grande barreira vermelha em volta de toda a muralha que protegia a capital.

Ela não era sólida, parecia uma fonte de luz ou de energia que emanava da terra em direção aos céus, era possível de se ver através de sua forma, mas não havia uma sombra a se mover entre as paredes de pedra. Um homem deu o primeiro passo, chamava por sua família em gritos mas não se ouvia respostas, quando ele a tocou, todos viram seu corpo se desfazer em uma poeira vermelha que levada pelo vento se fundiu a luz daquele lugar. O medo fez com que muitos corressem e até mesmo os mais curiosos ou corajosos deram alguns passos para trás.

As vozes dos Deuses ecoaram aquela noite pelos sonhos de seus fiéis, uma mensagem que até o nascer do sol já era do conhecimento de todos.

"A chave de nosso reino se encontra entre vocês, aquela que leva aos nossos tesouros, que pode te dar a imortalidade ou lhe conceder um desejo. A alimente com vida. A alimente com sangue. E o primeiro a tocá-la será o vencedor."

Uma declaração de guerra disfarçada de uma promessa.

O mundo se movimentou, milhares começaram a marchar e navegar em direção a terra "abençoada". Alguns na esperança de realizar um sonho, outros pelos sentimento de cobiça e poder, todos pelos seus próprios motivos, egoístas ou não.

As batalhas não demoraram começar, de longe já era possível de se ouvir o bater de lâminas em frente aos portões. As areias douradas que antes banhavam aquela região foram se tornando aos poucos vermelhas como o sangue de cada vida tirada, cada corpo que caía em terra alimentava de alguma forma a chave que apenas observava, diminuindo aos poucos a barreira que a cercava.

Tantas vidas tiradas, tantos corpos deixados de lado sem valor. Os dias passavam devagar, cada por do sol marcava o início de uma batalha silenciosa onde alguns usavam as sombras para se esgueirar, quando a luz voltava aqueles que ainda estavam de pé usavam apenas da força de vontade que lhes restava para continuar aquela disputa.

No fim os que observavam de longe disseram que apenas 3 estavam de pé. O primeiro, um homem com vestes resistentes mas com pouca proteção já estava debilitado segurando uma de suas costelas quebradas. A segunda, uma mulher de cabelos alaranjados usava uma armadura branca, ou pelo menos algumas partes que ainda sobravam dela, empunhava uma lança em mãos, sempre em guarda esperando qualquer movimento ofensivo. O terceiro ou a terceira permanecia em silencio, usava roupas simples e um capuz, andava a dias se escondendo pelos corpos apenas esperando a hora certa de atacar.

A batalha então se deu início com o toque do aço que cada um empunhava com tanta resistência, não havia passo em falso, não havia dúvida, não havia volta, os dois dançavam ao lado da morte, uma visitante que já a muito estava presente esperando apenas o momento certo que pudesse lhes dar um abraço. As últimas gotas de sangue foram lançadas ao vento acompanhadas do som do seu ultimo suspiro, o homem que tanto sonhava caiu de joelhos ao sentir a ponta da lança lhe atravessar o peito, um sorriso estampava seu rosto e sua adversária lhe agradecia com uma reverência.

A barreira aos poucos se desfez, sua luz vermelha subiu aos céus carregando a alma de cada vida perdida em seu nome. A cidade já era um amontoado de escombros, ruínas do que um dia havia sido. Em seu centro onde não havia mais nada, flutuando a poucos metros da terra estava aquela esfera de carne que ecoava um chamado tão tentador.

A mulher andou sem pressa em sua direção, deixando para trás os corpos daqueles que tanto lutaram. Talvez pelo sentimento de vitória que lhe tomava não conseguiu ouvir ou apenas não ousou acreditar que alguém teria tal audácia de entrar em seu caminho. A lâmina lhe atravessou o estômago com força e somente quando viu a ponta da espada se deu conta do que realmente havia acontecido. Aquele que se escondia pelas sombras esperou tempo demais e agora era a chance que tinha de conseguir ser aquele a tocar o grande prêmio, ele tentou correr mas se assustou ao sentir aquela mão o segurar. Seus olhos eram de ira e seu corpo se movia pela raiva, a mulher o jogou ao chão e começou a sufocá-lo.

"Covarde"

Ela disse em alto e bom som, quebrando o silêncio criado pelas divindades.

A chave então se moveu, talvez tivesse tomado um veredito ou apenas fizera uma escolha, e da mesma forma que surgiu a tantos dias, novamente ela gritou uma última vez, e os dois corpos que guerreavam a sua frente desapareceram.

Não se sabe qual foi o vencedor, não se sabe qual foi o pedido feito. Mas naquele dia o mundo pode começar a voltar a ser como era antes.

As perdas deixaram uma marca na história, um motivo de reflexão para alguns, um motivo de inspiração para outros, mas para a maioria foi deixado um aprendizado e uma nova forma de enxergar a realidade ao qual habitavam.